O sabor do lugar: Brasil

A gastronomia representa o Brasil mais do que futebol e samba

Quando você escuta o nome Brasil, o que lhe vem à mente? Provavelmente samba, futebol e o Rio de Janeiro (que para a surpresa de muitos, não é a capital do país). Acertei?

A imagem do Brasil ao redor do globo foi construída sob certos aspectos culturais que se destacaram mundialmente há um certo tempo. Gêneros musicais como o samba e a bossa nova, originados nas comunidades afro-brasileiras do Rio e consagrados em canções como “Mas Que Nada” de Jorge Ben Jor, ganharam a gringa e possuem versões até em outras línguas. Vencer mais vezes a Copa do Mundo (ainda somos penta!) eternizou a imagem de astros como o rei Pelé, o estádio do Maracanã, também no Rio, e a do Brasil como país do futebol. A Cidade Maravilhosa e suas praias, ou a natureza exuberante do Brasil (incluindo-se a importantíssima Floresta Amazônica que necessita ser preservada) estão sempre no imaginário coletivo internacional quando falamos no Brasil.

Futebol, samba, carnaval. Todos esses elementos são motivos de orgulho para o povo brasileiro, mas não chegam nem perto de fazer jus ao tamanho da diversidade cultural desta nação! 

O país continental é o quinto maior em território do mundo – ocupando mais de 5% de todo o planeta Terra, abrigando mais de 212 milhões de pessoas e é considerado o país mais biodiverso que existe! E sabe o que possuir todo esse tamanho, gente e quantidade de flora e fauna significa? Muita comida! Dá para imaginar a quantidade de ingredientes singulares que a maior biodiversidade do mundo tem para oferecer? 

O Brasil é constituído de diversos povos. Nossas comunidades indígenas e afrodescendentes (leia-se a maioria da população brasileira) ainda resistem às ameaças à sua existência e lutam pela sobrevivência de suas vidas e culturas, mesmo após séculos da colonização e fim da escravidão. Somos formados de vários sotaques e até línguas diferentes do português, e dizem que sempre vamos discordar sobre música, política, religião e futebol. Mas, em torno da mesa (ou na internet), o Brasil se une – e eu tenho como provar!

Os próprios brasileiros promovem sua culinária de uma forma divertida e original. A thread do Twitter “This represents Brazil more than soccer and samba” tornou-se viral e seu intuito foi mostrar elementos do dia-a-dia dos brasileiros que são comuns nos cinco cantos da nação. E sobre o que fala grande parte dos memes nessa thread? Itens que remetem às nossas cozinhas, desde pratos típicos da culinária até a objetos e utensílios como louças made in Brasil! Isso só demonstra a importância da gastronomia em nossa cultura e como ela provoca um sentimento de nacionalismo, até mais do que outros elementos culturais que costumam ser mais associados ao Brasil que a comida. Dentre eles, escolhi citar alguns emblemáticos, amados pelo Brasil e muito democráticos.

Um almoço típico com arroz e feijão está no coração e na mesa de todo brasileiro. Por mais que não pareça “único” ou “exclusivo”, uma vez que estamos falando de dois produtos globalizados encontrados basicamente em qualquer parte da Terra, o Brasil tem seu próprio tempero, forma de fazer e até de se comer: reza a lenda que a escolha de servir o feijão sobre ou sob o arroz diz muito sobre o caráter da pessoa. O pê-efe (prato feito) é como carinhosamente chamamos nosso almoço de cada dia, que fica completo com alguma proteína, farofa e salada (também adoramos com batata-frita). As saladas são tão saborosas quanto coloridas, enriquecidas com ingredientes como palmito, pequi, abacaxi, manga e morango. E não se deixe enganar pela “normalidade” dessa expressão culinária, lembre-se que tamanha biodiversidade possui ingredientes que você nunca nem ouviu falar e que o brasileiro é criativo por natureza!

Comidas deliciosas feitas de milho são pratos típicos das famosas Festas Juninas: pamonhas (uma iguaria parecida com o tamale, feita de uma massa de milho, envolta na palha do milho e cozida, temperada doce ou salgada), curau, canjica, mugunzá, angu, bolo de milho, milho assado com manteiga…. Historicamente, junho era a época da colheita do milho e quitutes à base do grão eram preparados em comemoração. Eram não, são. Digo sem pestanejar que as festas juninas reúnem mais brasileiros do que o próprio carnaval: está para nascer o brasileiro que reclame das quermesses de junho. Seus objetivos são unicamente comer, beber e dançar o forró e quadrilhas (a dança específica dessas festas, muito características do Nordeste do país). As festas juninas acontecem durante o inverno brasileiro e são as fogueiras e o quentão (bebida feita com a bebida nacional, a cachaça, fervida com rodelas de limão e laranja e especiarias como gengibre, cravo e canela e açúcar) que esquentam as noites. Mas, para a alegria da nação, a pamonha e os outros quitutes de milho podem ser garantidos durante todo o ano: nos bairros residenciais brasileiros, existem os chamados “carros da pamonha”. Não, não é algo como um food truck, é literalmente algum produtor de pamonha vendendo seus produtos ao passar de rua em rua anunciando “olha a pamonha!” por meio de um megafone acoplado em seu carro.

Outras comidas de festa incluem os “docinhos” e os “salgadinhos”. Docinhos é como chamamos o conjunto do brigadeiro e seus “derivados”. O brigadeiro é o doce mais democrático e amado do país e está presente em qualquer comemoração de aniversário no Brasil ou em qualquer lugar que estejamos: se você conhece algum brasileiro, ele já descobriu como preparar brigadeiro usando os ingredientes que ele encontrou na sua parte do mundo, então aproveite! É uma massa feita simplesmente de leite condensado, manteiga e chocolate mas cozida ao “ponto de brigadeiro”, que é quando a massa descola da panela. Existem diversas variações com castanhas, doce de leite, coco, jatobá, óleo de pequi, etc. O brigadeiro é tão querido que representa uma das fontes de renda extra mais popular dos brasileiros. Já os salgadinhos são algo como “finger foods” salgadas que servimos nas festas de aniversário, com destaque para a maravilhosa coxinha de frango, ícone do país, um quitute preparado com massa de batata, recheada de frango e frita em imersão. Ela é moldada na forma de uma coxa do frango, por isso seu nome. Aqui do Brasil, existe a tradição hospitaleira dos convidados levarem um pratinho com salgadinhos, docinhos ou bolo (ou tudo) para casa ao final da festa.

E, por fim, mas não menos importante, o café! Talvez seja o alimento mais lembrado no exterior como característico do país, pois é uma das commodities brasileiras. Não importa a temperatura que esteja fazendo neste país tropical, nunca está quente o suficiente para se recusar um “cafézinho”. Ele é símbolo de hospitalidade, de jogar conversa fora, do “pão de cada dia”, do pobre e do rico. Em qualquer casa, bar, padaria ou restaurante, você pode pedir um café (o mais comum é filtrado) ou um “pingado”, como é chamado o café com leite, que muito provavelmente será servido no Copo Americano, um símbolo do design nacional, que já foi exibido até no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA!

A personalidade gastronômica brasileira é tão grande quanto o próprio território. Aqui, falamos em gastronomias, no plural, reflexo da singularidade e diversidade de nossa natureza e de culturas repletas de criatividade, inteligência, ousadia e alegria. Falar em comida brasileira é contar a própria história do Brasil: é conhecer nossas raízes, tradições e costumes da forma mais genuína possível. Por meio de nossos pratos regionais, ingredientes característicos de cada bioma do país (Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa) e modos de cultivar, preservar, saber e fazer que ainda resistem no tempo e espaço em comunidades indígenas, quilombolas, afro-brasileiras e ribeirinhas (onde nasceram os pratos mais característicos do país) podemos descobrir um Brasil que vai muito além do que o mundo imagina. 

É realmente uma pena que tamanha riqueza culinária não seja tão conhecida e saboreada mundo afora, pois o mundo perde em sabores, saberes e experiências incomparáveis. Mas, a partir de agora, quando o nome Brasil vier à sua mente e a imagem da natureza exuberante, da grandiosidade do carnaval ou da ginga presentes na música e no futebol vier à sua mente, lembre-se também que a culinária brasileira reúne toda essa grandeza, sagacidade, sabor e unicidade em cada prato servido – e bom apetite!

Escrito por: Melissa Braga

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